Neurociência, a Felicidade e o Propósito

Treinamento Comportamental

19/06/2017 às 14:28
Resumo:

FELIZ-cidade? FELIZ-idade?
Existe um lugar onde só se tenha sido feliz ou onde só se seja feliz o tempo?
Existe um momento de nossa vida onde só tenhamos sido felizes ou só venhamos a ser felizes?
Não!
Todo mundo no mundo sabe que isso não existe. E, então, por quê ainda dizemos coisas como:
“Eu era feliz e não sabia” ou “Quando eu conseguir meu sitiozinho no interior (serve também “casa na praia ou no campo; chácara, casa própria – em qualquer lugar do planeta…”); minha felicidade estará completa”; por quê dizemos coisas assim?

Artigo:

Não, decididamente felicidade não é nem um QUANDO nem um ONDE. Embora sempre haja os dois componentes nela.

E tem mais, ela só existe porque nem sempre é possível gravar ou fotografar momentos “perfeitos”! A gente só tem momentos “perfeitos” na lembrança porque a memória nunca é precisa! Se houvesse como registrar os momentos exatamente do jeito que aconteceram, lembraríamos que faltava alguém ali ou que estava ali alguém que se não estivesse teria sido melhor; ou que algo poderia ter sido dito/feito mas não foi ou que algo que poderia NÃO ter sido dito/feito foi e causou arrependimento; ou que algo que foi dito/feito poderia ter sido dito/feito de forma melhor; ou que a gente não estava tão bem – magra, bonita, alta, penteada, maquiada, vestida… – quanto gostaria; ou ARRRRRGGHHHHHH!

Podemos abordar o conceito de FELICIDADE de inúmeros pontos de vista; da Teologia, da Antropologia, da Psicologia, da Antropologia, da Sociologia e, para cada ciência, existe uma resposta, um conjunto de condições, diferentes abordagens. Mas todas concordam com um aspecto do conceito de felicidade: Trata-se de uma coletânea de momentos aos quais reputamos o adjetivo “perfeitos” e não de uma condição permanente. Além disso, a coisa não é feito matemática; não é binária, tipo Zeros ou Uns; não se trata de estar SEMPRE feliz ou infeliz, portanto, não se trata de SER mas de ESTAR feliz!

Bem cantou Arnaldo Antunes (e também a Gal Costa)

“Socorro! Não estou sentindo nada!” e, aí, ele pede:
“qualquer coisa que se sinta”,

… qualquer coisa cai bem.
Não sentir nada, estar anestesiado, é uma condição horrível!

Socorro!
Alguém me dê um coração
Que esse já não bate nem apanha. Por favor!

Não senhor! Ninguém quer estar nessa condição, não. Só pede isso quando o sofrimento é tamanho que parece que não sentir nada é melhor, mas não é.

Por isso, outro compositor, o Peninha, cantou:

Ter saudade até que é bom, é melhor que caminhar vazio (…)

Seja lá como for, felicidade é um conceito tremendamente complexo além de ser abstrato, subjetivo e intangível.

Como o Amor, por exemplo, que é tão, tão complexo que 3 filósofos precisaram abordá-lo, cada um de um ponto de vista para explicá-lo, ou melhor, para “tentar” explicar-lo.

A essência do Amor em Platão (EROS – desejo pelo que não se tem), do Amor em Aristóteles (PHILIA – Alegria pelo que já se tem; na presença) e do Amor em Cristo (ÁGAPE – felicidade pelo bem que se produz no próximo)”

Está tudo entre aspas porque peguei esse belíssimo resumo de um amigo filósofo Marcos Siqueira Moura.

Então, Amor e Felicidade são subjetivos, abstratos e… intangíveis.
Mas, será que são mesmo assim tão intangíveis?

Veremos…

Aqui, vamos falar de felicidade do ponto de vista da Neurociência, mais especificamente, da neurobiologia e, eventualmente, da Neuropsicologia. Isso, só pra te alertar que essa é apenas mais uma forma de ver a questão, mas JAMAIS a absoluta. Nem existe mesmo esse negócio de verdade absoluta…

Então, vamos lá.
Você já ouviu falar de neurotransmissores? Desconfio que já. Ocitocina, Endorfina, Dopamina, Serotonina, Noradrenalina, pra citar só as 5 mocinhas mais “famosas”.

Bem, o caso é que nós as produzimos em diferentes circunstâncias, mas há algo em comum sobre a produção destas aqui: Elas são conhecidas como as “do bem” ou da “felicidade”, em seus diversos aspectos e condições.

O mais importante sobre essa produção não é o que elas causam – felicidade; é como elas são produzidas!

Vou destacar três sistemas, comumente chamados de cérebro – não são, mas não faz mal chamar assim, se você não for fazer uma cirurgia neles.

1. Chamado Sistema Tronco-Encefálico; o mais arcaico de todos e também conhecido como reptiliano. Ele mantém o sistema ligado e funcionando o tempo todo.

2. Chamado Límbico-hipotalâmico; o intermediário; também conhecido como emocional. Ele processa todo e qualquer evento que nos chega através dos sentidos.

3. Chamado Tálamo-cortical; o mais moderno dos 3 e também conhecido como racional. Ali ficam arquivadas todas as informações e todo conhecimento que acumulamos durante a vida toda.

Por favor, considerem que estou sendo bastante simplista aqui. A ideia é facilitar sua compreensão, está bem?

Esse segundo, o límbico, como vou me referir à ele de agora em diante, é responsável por “encomendar” essa produção e, por favor, aqui estou te dando uma visão prá lá de macro também, ok? Pra não ficar entrando em detalhes tipo hipófise, hipotálamo, pituitária, amígdalas e outras estruturas envolvidas nesse processo.

Essa parte do nosso cérebro é capaz de sintetizar felicidade. Explico, sempre que nós passamos por uma experiência que consideramos feliz (boa, alegre, prazerosa, recompensadora, etc.) ele inicia o processo de produção neuroquímica de algum destes neurotransmissores ditos “do bem”. O caso é que mesmo quando se trata apenas de uma memória ele faz a mesma coisa. O fato nem precisa estar acontecendo aqui e agora! E vou te contar outra coisa, nem precisa ter acontecido de verdade; nem precisa vir a acontecer; apenas por imaginarmos sua possibilidade e a idealizarmos, começa a produção neuroquímica! Viu que legal? Uma fábrica de criar estados felizes bem aí dentro de você!

Só porque emoções e sentimentos são abstratas e subjetivas, não significa que sejam também intangíveis uma vez que se pode mensurar essa produção e ela é física (eletro-química, então parte dela é intangível – a parte elétrica; parte dela é tangível – a parte química).

Agora que você sabe disso, percebe as possibilidades contidas aqui?

É só imaginar e começar a ser feliz! Foi Antoine de Saint-Exupèry quem disse em seu “Pequeno Príncipe”:

“Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieto e agitado: descobrirei o preço da felicidade! Disse a Raposa ao Principezinho.”

Claro que três é um número simbólico; significa apenas que a gente começa a “produzir” felicidade assim que começa a se conectar com o evento que considera feliz!

Agora considere outra questão; se a produção é a mesmíssima pro fato, a lembrança do fato ou a idealização de algo, importa se é real ou se eu assim creio?

Não, né?

Importa se amo ou só acho que amo? Não.

Neurologicamente, neuropsicologicamente, neurobiologicamente é tudo a mesma coisa!

Então, estimados leitores, cuidado! O mesmo é verdadeiro para o se sentir INfeliz só de pensar que possa acontecer! “Despense” – do verbo “des-pensar”) já!

Ordens do médico 😉

Concluindo as três questões sobre as quais me propus a escrever neste artigo:

1. O que é a felicidade para nosso cérebro?
A felicidade para o nosso cérebro é qualquer coisa que assim consideremos.

2. Como a produzimos?
Nós a produzimos apenas imaginando-a.

3. Ela vem necessariamente da conquista de metas?
Não, ela independe da conquista de metas.

Pra encerrar, tem outra “coisinha” com a qual todas as ciências concordam sobre felicidade: Ela é muito, muito difícil de ser produzida sem que se tenha um propósito na vida!

E, aqui, não quero nenhuma Ciência pra ilustrar ou explicar; quero uma Arte: O cinema; onde duas horas equivalem a uma vida inteira!
No filme “Hugo Cabret” há várias cenas sobre propósito de vida porque essa é a questão master do filme. Uma, em particular, na minha opinião, resume tudo!

São duas cenas, pra ser bem sincera contigo, leitor.

A primeira aparece no filme quando Hugo vai mostrar o lugar onde vive para a nova amiga e diz à ela que imagina as pessoas tristes e doentes como máquinas quebradas, precisando de conserto. Foi a primeira vez que ouvi essa comparação e achei maravilhosamente poética. Nas outras vezes, essa coisa de ver pessoas como engrenagens numa máquina sempre me pareceu mecanicista mesmo. A forma como isso é feito no filme… bem, vá ver…

A segunda, na sequência da mesma cena, quando ele mostra uma belíssima visão de Paris depois de sobreposta à do mecanismo do re- lógio da Estação de trens onde vive e diz à ela que ele acredita que este mundo seja uma imensa máquina onde todo mundo tem uma função; um propósito.

“Nenhuma máquina vem com peças extras.” ele diz. “Todas vêm com as peças que precisa para funcionar. Se você está nesta máquina é porque tem um propósito nela.”

Ninguém é uma peça sobrando; uma pecinha sobressalente…
Ninguém está neste mundo à toa… por acaso…
Nem eu… nem você…

Então, formas de ver e “ler” felicidade existem muitas, mas fiquemos com o que todas elas têm em comum: Encontrar um propósito na vida. E eu te pergunto: “Você já achou o seu?”

Se a resposta for “Ainda não”, pede ajuda.

Se a resposta for “Já, já achei”, bem, boa prática pra você 😉

E fica aqui um presentinho pra você: A cena mais “tudo” de Hugo Cabret, na minha modesta opinião…